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HÁ 2 anos atrás
Relíquias do interior

Quando se fala em carro antigo, logo pensamos que as metrópoles abrigam as maiores coleções e os exemplares mais cobiçados. Mas nem sempre é assim. Distante cerca de 360 quilômetros de São Paulo, a pequena cidade de Itápolis – capital nacional da laranja – nos reserva grandes surpresas e histórias de pessoas apaixonadas pelo antigomobilismo.

A idéia desse artigo surgiu, por acaso, no último mês de abril. Estávamos percorrendo as ruas da cidade quando, de repente, cruzamos com um vistoso Bel-Air verde-musgo, que seguia seu rumo tranqüilamente. O coração bateu mais forte e o espírito das letras se manifestou mais uma vez. Seguimos o clássico e, após uma rápida conversa, chegamos ao primeiro personagem dessa história.

Dois meses se passaram até uma nova visita à cidade. Desta vez, “armados” com bloco e caneta, fomos ao encontro de Sidmar Ailton Mingoni, em sua oficina. O barracão – na parte de trás da casa – guarda belas surpresas, que fomos descobrindo por meio das lembranças do proprietário.

A primeira raridade estava no fundo da garagem. O caminhãozinho Ford 1928 – impecável – “descansava” debaixo de uma capa. “Ele foi totalmente restaurado por meio de uma foto. Até mesmo os detalhes da carroceria de madeira”, conta Mingoni. E a foto ainda está lá na parede, com algumas placas, que ajudam a contar a história de alguns dos automóveis ali presentes: Atibaia, Araraquara, Colina, Copacabana…

Vale destacar também a presença de um Ford Sedan 1947 que, com seu resistente motor de oito cilindros, vai rodando aos encontros e nunca deixou o colecionador na mão. “Restaurei um carro para cada filho”, diz orgulhoso, exibindo um Fusca 1962 que parece ter saído há pouco da concessionária. Pneus faixa branca e a pintura lisa revelam o cuidado na preservação.

Saindo da oficina, fomos conhecer o galpão onde os carros são restaurados. Esse percurso foi feito a bordo de uma picape Ford F-1 1951 amarela, um hot rod que não passa despercebido pelas ruas. Pedaleiras esportivas, bancos retirados de um Mercedes-Benz Classe A e um valente motor turbodiesel são três sinais da exclusividade do modelo. O chassi alongado garante um passeio confortável aos ocupantes, que não chacoalham como ocorre geralmente com as picapes.

Na área industrial da cidade está localizado o galpão, onde dezenas de automóveis aguardam o momento de voltarem “à vida”. DKW, Ford F-100 e vários Fuscas repousam no pátio. Uma Vemaguete recebia os últimos cuidados na pintura dentro da estufa, enquanto era instalada a coluna de direção em um Bel-Air 1954.

Se a restauração é um belo serviço, o que podemos dizer quando alguém resolve construir seu sonho? É o caso de Vanderlei Soares Alves Júnior, que trabalha na montagem de uma réplica do Porsche 911. Correções na fibra de vidro, chassi reforçado e entradas de ar esculpidas na carroceria já consumiram dez meses de esforço e dedicação.

“O kit veio com alguns problemas, torto, e o acerto foi feito com base em fotos do modelo original”, diz Vanderlei, mostrando uma das imagens na parede. O motor boxer, de Fusca, está um pouco mais forte, com a adoção de um comando 288° e carburadores Weber. “A previsão é que fique pronto em dois meses”, finaliza, sorridente. Sem dúvida, coisa de apaixonado.

No dia seguinte, fomos conhecer outro personagem de nossa matéria. O serviço social de luto São Francisco tem 80 anos de tradição na cidade e foi fundado na década de 20 pelo avô de Alfredo Amoroso Neto. No andar de cima, caixões trabalhados com detalhes de acabamento, além de exemplares importados da Argentina e Estados Unidos.

O interesse especial fica por conta de um Landau fúnebre, adquirido há 21 anos. Mas se o leitor olhar com atenção a lateral do veículo verá que este é um carro único, mais alto que a versão original. “As urnas simplesmente não cabiam”, conta Alfredo, que redesenhou e modificou toda a parte traseira, de modo que pudesse atender ao seu objetivo.

Neste ponto, cabe uma observação importante. A reforma está toda documentada nas pastas da empresa. Um croqui revela o desenho feito pelo proprietário com as novas medidas, além de fotos detalhadas de cada etapa do projeto. Nota dez para a organização.

Uma das coisas que se nota no antigomobilismo é o fato de ele ser altamente contagioso. A paixão atinge toda a família. Esse é o caso de Armando Brunelli Júnior – freqüentador assíduo do encontro de Águas de Lindóia – e seu filho André. “A coleção começou em 1980, com um Galaxie 500”, conta o pai.

A partir daí, fomos conhecer o restante do acervo que faria a alegria de qualquer apaixonado por carros antigos. As duas grandes portas de aço se abriram e revelaram algumas raridades de cair o queixo.

O primeiro veículo que chama atenção é uma perua Oldsmobile Custom Cruiser 1973, único exemplar no país. Painel completo, conforto de sobra nos espaçosos bancos de couro marrom e motor 455 V8, um big block digno de respeito. A seu lado, um Aero-Willys 1967, desde zero-quilômetro na família.

Ficou animado? Então imagine ser o segundo dono de um Ford Sedan 1948. O veículo foi comprado de uma viúva de Teresópolis e está original, sem restauração. Perto da saída, um Dodge Magnum 1979 com 45 mil quilômetros rodados ainda traz os selos de fábrica.

Mas ainda tem mais. André nos conta que seu avô possui um Dodge Dart 1976 com 30 mil quilômetros e ainda revela a existência de dois Cadillacs no acervo, que não puderam ser fotografados, pois estavam passando por uma revisão completa.

Outra coisa que aprendemos é que nunca é tarde para começar. Eduardo Bonini iniciou a coleção há três anos. O primeiro veículo foi um Bel-Air 1953 – aquele do segundo parágrafo – adquirido na cidade de Catanduva. A partir daí, não parou mais com o hobby.

Quando chegamos para fazer as fotos, seus carros estavam todos cobertos por capas, feitas sob medida na própria cidade. Ao descobrir os clássicos, vislumbramos belos exemplares: Ford 1929, Rural-Willys, Karmann-Ghia TC e Maverick SL, além de Fusca e um jipe.

No último dia de nossa estadia em Itápolis, nos encontramos com um senhor que preferiu se identificar apenas como “seu Abílio”, um aposentado que trabalha como taxista. Até aí, nada de novo, não fosse o carro que ele utiliza para atender as chamadas: um Opala Super Luxo 1971.

O carro foi comprado há 22 anos, em Ribeirão Preto. Como é o segundo dono, o aposentado ainda tem o manual do proprietário guardado no porta-luvas. Seu Abílio conta, ainda, que o Opala ficou guardado durante muitos anos e foi colocado na praça nos últimos seis meses.

Durante a reportagem pudemos conhecer pessoas diferentes, que sabem da importância da preservação da história, perseguem seus sonhos e mantém a memória viva. Por isso, além de capital nacional da laranja, Itápolis já pode receber um outro título com todo mérito: capital regional do carro antigo.

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